Dificuldades e Transtornos de Aprendizagem: Qual a diferença?

Dificuldades e Transtornos de Aprendizagem:  Qual a diferença?

Olá, pessoal, tudo bem? Estamos aqui de novo, muito felizes em participar mais uma vez de um evento tão grande. Eu sou Aline Ximenes, psicopedagoga, mestre em educação e trabalho com esses alunos com distúrbio de aprendizagem, transtorno de aprendizagem e dificuldade de aprendizagem no meu dia a dia. Hoje, vamos bater um papo sobre dois conceitos que costumamos usar como sinônimo, mas é muito errado. Vamos trabalhar sobre as dificuldades e os transtornos de aprendizagem.

 A primeira coisa que eu quero falar para vocês é que esses conceitos ficam bem trabalhosos quando eu vejo a análise histórica. Muitos teóricos utilizam transtornos, distúrbios, dificuldades de aprendizagem como sinônimo, e não são, está certo?

Os livros que eu peguei como referência e indico são da “Ciasca – Transtorno de Aprendizagem”, o “DSM-5” e o “CID 10”. É importante saber o que é transtorno, síndrome, distúrbio, enfim. Independente do conceito, eu tenho que ter como base o DSM e o CID. O DSM-5 foi reformulado em 2014, se não me engano, com novos conceitos com novas organizações; já o CID 10 também passa por um processo de reelaboração para chegar no Brasil. O novo CID é caracterizado como CID 11.

Também utilizo para minha fala hoje o livro da Sampaio e Freitas, “Transtornos e Dificuldades de Aprendizagem”, da editora Wak. Super indico para vocês; vale a pena a gente ter. “Dificuldade de aprendizagem”, do Grupo Cultural, traz muitas estratégias práticas, mas o conceito mais atual vem do livro “Transtornos”. Então essas leituras valem muito a pena para quem quer estudar um pouquinho mais sobre o assunto.

Então, irei começar falando o que é um transtorno de aprendizagem, também considerado TA. A primeira coisa que a gente precisa entender é que o TA não é uma disfunção simples e comum, mas, pode incluir dificuldades em várias áreas relacionadas à escrita, leitura e matemática, bem como nas habilidades sociais, distúrbios emocionais e comportamentais.  

Os TA excluem, de imediato, de sua definição causas como:

  • Deficiência mental,
  • Distúrbio emocional,
  • Diferenças culturais e
  • Falhas no desenvolvimento.

Muitas alterações no conceito de TA foram feitas durante sua trajetória. O que a gente precisa em TA é entender que o transtorno de aprendizagem tem uma causa muito mais profunda do que a gente imagina. Então, eu não posso simplesmente sair diagnosticando o transtorno sem fazer uma análise disso. Uma coisa, TA não é deficiência mental, está certo?

 Nem sempre a pessoa que tem transtorno de aprendizagem no que se refere, por exemplo, a leitura, a escrita e a matemática, como a gente vai ver a disgrafia, dislexia e discalculia, têm problema de coeficiente intelectual. Se assim tiver, a gente precisa estudar mais o caso, mas não há relação entre deficiência mental e transtornos de aprendizagens.

Então, no Brasil, nós tivemos uma revolução conceitual no que se refere aos transtornos, e quatro foram bem significativos. Em Lefreve, 1975, a definição de TA é:

  • Uma síndrome que se refere à criança com inteligência próxima da média ou média superior com problemas de aprendizagem.

Percebemos que esta frase faz relação entre a questão da inteligência ao problema da aprendizagem. Mas, veja bem: quando ele coloca inteligência, é inteligência média ou superior.

Nammill, 1981, coloca:

  • Distúrbios de aprendizagens (DA), como um grupo heterogêneo de transtornos que se manifesta por dificuldades significativas na aquisição e usa da escrita, da fala e da leitura, habilidade ou raciocínio matemático.

A partir de 1981 é que a gente já consegue perceber uma evolução conceitual e definição de áreas que ficam comprometidas com os transtornos.

E aí, temos o DSM IV, onde ele já aponta a nomenclatura do transtorno de aprendizagem:

  • No DSM IV, os transtornos de aprendizagens são diagnosticados quando os resultados dos indivíduos em testes padronizados e individualmente administrados de leitura, matemática, ou expressão escrita estão substancialmente abaixo do esperado para sua idade, de escolarização e nível de inteligência.

Então, aqui, já conseguimos perceber a relação próxima dessa dificuldade em relação ao seu desenvolvimento enquanto sujeito, a idade cronológica dele, bem como o nível da sua inteligência e sua escolarização.

No DSM 5 que utilizamos hoje, nos referimos ao TA como:

  • Um distúrbio de desenvolvimento que atinge 5 a 15 % da população escolar.

Isso é um dado sério, porque, se percebermos, a porcentagem de 5 a 15% da nossa população escolar é um número muito alto.

E isso vai, automaticamente, mudar nossa prática pedagógica. Descreve-se que o grau de gravidade é baseado na variedade de métodos, história médica, entrevista clínica, avaliação do professor e testes psicométricos. Os testes psicométricos, muitas vezes discutidos entre os clínicos e os teóricos, auxiliam e são necessários nesses diagnósticos.

O que a gente precisa entender é que, várias vezes, vocês vão ouvir isso na minha fala: quanto mais cedo a gente consegue identificar o transtorno de aprendizagem, ou uma dificuldade de aprendizagem, enfim, mais fácil vai ficar a minha intervenção.

Destes 5% a 15% de pessoas que podem sofrer de algum tipo de transtorno, a maioria delas nem sabe, e, muitas vezes, dependem de nós, professores e pais, para identificar precocemente esses transtornos e fazer a intervenção necessária.

Os transtornos de aprendizagem, de acordo com a Ciasca e vários autores do livro Transtorno de Aprendizagem, se dividem em dois grandes grupos:

  • Os transtornos de aprendizagem verbais e
  • Os transtornos de aprendizagem não verbais

 Os transtornos de aprendizagem verbais são dificuldades relacionadas à linguagem oral, escrita, velocidade da leitura, soletração, desempenho perceptivo e o processamento auditivo, visual e motor. Veja bem, quando eu trabalho essa questão do transtorno de aprendizagem em várias ações minhas no cotidiano, posso identificar se existe uma dificuldade nessas aquisições.

Transtornos de aprendizagem não verbais, são os transtornos que envolvem distúrbios na percepção tátil, coordenação psicomotora, organização espacial, formação de conceitos, cálculos, prosodia e adaptação social ao meio. Perceba, nós temos duas categorizações, mas, podemos ter uma criança que tenha algumas questões do transtorno não verbal, sendo que o transtorno diagnosticado é o verbal?  Sim, podemos. Por que? São as chamadas comorbidades.

O que são as comorbidades? É aquele algo mais, eu costumo dizer; é o “pegue um, vem dois”. A gente tem, às vezes, uma dificuldade no déficit de atenção, ou DPA, distúrbio de processamento auditivo central.

Também temos uma nova sigla, que é TPA; se eu tenho esse diagnóstico de DPA ou TPA, meu aluno pode ter automaticamente um problema de atenção e uma adaptação dificultada na questão social. Então, ele pode passar por essas duas fases.

Diante de tantas classificações e conceitos, o transtorno de aprendizagem é:

  • Uma disfunção do SNC (Sistema Nervoso Central), relacionado à falha do processo de aquisição ou do desenvolvimento da leitura, escrita e raciocínio matemático.

Essa é a definição que eu tomo para minha prática, em virtude da amplitude que se tem e da relação que ela tem com o DSM 5; então, para mim, hoje, é a que mais se adequa.

Vamos falar um pouquinho dos transtornos verbais mais comuns. Temos os transtornos verbais, que são dificuldades relacionadas à linguagem oral, escrita, velocidade de leitura, soletração, desempenho perceptivo e processamento visual, auditivo e motor; o mais conhecido deles é a dislexia.  

A Dislexia, hoje, é um transtorno muito estudado hoje em dia, pois, cada vez mais crianças sofrem disto, e que fica muito mais evidente devido à alfabetização. Com a questão do letramento, onde se exige algumas habilidades que eles acabam não tendo, vale ressaltar que nem sempre pode ser dislexia.  Veja bem: vimos síndrome chamada SDP, ou síndrome da deficiência postural, que é pouco falada aqui no Brasil, mas vale a pena tocar no assunto, porque muitas crianças que são identificadas com dislexia podem ter, ao invés de dislexia, a SDP.

Então, se quer uma dica de estudo possível, veja o que o Dr. Orlando fala dessa questão da propriocepção no processo no processo de aprendizagem. Esses transtornos são bem complexos de ser identificados. Não é porque a pessoa troca uma letra que ela tem tal transtorno; deve-se ter muita cautela com o diagnóstico, pois ele não pode ser feito de qualquer forma.

Quando eu faço o diagnóstico errado, automaticamente, faço a intervenção errada. Então, fica a dica quando eu falo dislexia: a gente realmente saber o que é dislexia, mas, identificar outras síndromes, outros transtornos, outros distúrbios que podem estar bem relacionados a esse processo sendo um deles a SDP, síndrome da deficiência postural é totalmente diferente.

O QUE É DISLEXIA?

Ela é definida como a falha do processamento da habilidade da leitura e da escrita durante o desenvolvimento. É considerada com uma dificuldade em traduzir sons em símbolos gráficos e compreender qualquer material escrito. É o mais incidente dos transtornos específicos, com índices que variam de 5 a 15% da população com transtorno de aprendizagem, e está dividida em três grupos: dislexia auditiva, dislexia visual e dislexia auditiva-visual, também chamada de mista.

Poderíamos ter um curso só sobre dislexia, porque ela é múltipla, ampla, e necessita de muito estudo. Precisamos entender como esse cérebro faz e o que acontece nessa questão neurológica da questão da dislexia, pois a dislexia não é puramente só a dislexia.

A dislexia exige, às vezes, ações bem peculiares na nossa forma de gerenciar o nosso aluno ou nosso filho. Um bom exemplo disso são que todos os comandos que a gente pede de escrita, pedir para que ele faça oralmente. Nem sempre, uma criança que não aprende é uma criança que não sabe o conteúdo; às vezes, ela não dá a devolutiva que você espera como a mais correta.

Percebe? Quando eu falo da dislexia, vê-se que é muito interessante como as pessoas criaram estratégias para aprender a estudar. Grandes artistas possuem dislexia. Então, podemos ver que temos a dislexia, mas não um transtorno mental.

Lembram-se do que eu falei há um tempo, que não há uma relação transtorno de aprendizagem com a questão da deficiência mental? As dislexias são cenas para o próximo capítulo.

A disgrafia é a falha na aquisição da escrita, e implica na inabilidade ou na diminuição do desenvolvimento da palavra escrita, atingindo de 3 a 10 % da população. Veja bem, ela não atinge o percentual da dislexia, mas ainda é um percentual considerável. Pode estar relacionado a construção de frases, formação ortográfica gramatical, a caligrafia e a espacialidade.

 Esse é um texto de uma criança que tem 9 anos. Percebemos bem a escrita dela, então, “era e a cão”, percebemos, primeiro, a omissão das palavras, “era uma vez”. A escrita dela é ininteligível, e não conseguimos dar significado em várias questões. Percebemos a omissão de letras: “tina” no lugar de “tinha”. Nisso, verificamos dentro da escrita dela as dificuldades que ela tem, que faz com que o texto não consiga ter significado. E, quando isso acontece, eu tenho uma questão de disgrafia.

Quem tem disgrafia tem dislexia? Pode acontecer, sim, de quem tem dislexia, ter a disgrafia. Isso é um processo que pode acontecer.

A discalculia está relacionada à aquisição na capacidade e habilidade de lidar com conceitos e símbolos matemático, basicamente, no reconhecimento numérico e raciocínio matemático. Atinge de 3 a 6 % da população com TA. Envolve a percepção, memória, abstração e funcionamento motor.

Acho muito interessante falar da discalculia com as pessoas, porque a maioria diz: “eu não gosto de matemática, tenho discalculia”. Não, você tem dificuldade de aprendizagem em matemática, mas você não tem discalculia. A discalculia é um transtorno que vai muito além do gostar de matemática; de realizar uma ação de matemática. O gostar da matemática, muitas vezes, está mais relacionada a minha relação com o meu professor do que aos conceitos trabalhados na área de matemática.

Vemos aqui, 54 menos 35, onde ele fez 4 menos 5, 4 não tira 5. Então, ele não consegue fazer a noção do que tira e o que põe, se o menor tira do maior, se eu tenho que fazer um reagrupamento, entre outros.

 Vejam aqui a escrita dos números. Temos uma inversão, não há uma sequência e ele repete o número 7.  Aqui, mais uma vez, eu tenho a escrita. Essa fase é a fase em que as crianças estão em um processo de alfabetização e educação infantil, mas, quando há discalculia, vai para um processo mais complexo de conhecimento.

Por exemplo, se eu falo para ele, “pegue um real em moedas de 25 centavos”, ele não sabe transformar um real em quatro moedas, então, vamos percebendo que a discalculia não é o não gostar de matemática, não é um “tenho dificuldade em algumas áreas de matemática”, mas, sim, que existe um comprometimento na organização desse pensamento matemático.

TRANSTORNO DE APRENDIZAGEM NÃO VERBAL

Então, dentro do verbal eu apresentei três para vocês: a dislexia, a disgrafia e a discalculia. Existem outros? Sim, vários outros. Cada um desses transtornos da área verbal precisa ser bastante estudado. Mas, uma coisa que a gente precisa deixar claro é: não é porque eu tenho um diagnóstico de TA, de dislexia ou discalculia que eu posso trabalhar com todos, igualmente.

Por exemplo, eu tenho 4 alunos que tem dislexia. Às vezes, a estratégia que você dá para o João não é a mesma estratégia que você vai usar com a Maria, porque cada um tem um contexto e histórico social de vivências diferentes. Então, isso é um fator que interfere automaticamente na vivência e na organização dessas características do transtorno, ok? Não há receita pronta, é o que eu sempre falo.

Então, vamos dar uma olhadinha nos transtornos de aprendizagem não verbal:  transtorno de aprendizagem não-verbal (TANV), é uma das questões que eu mais tive que me aprofundar, porque existe uma discussão teórica e clínica em cima disso, justamente em relação ao CID 10, porque no CID 10 ele ainda não é reconhecido. O TANV, transtorno de aprendizagem não verbal, vem sendo reconhecido já no DSM 5, mas, se faz uma referência ao CID 11, que ainda não chegou no Brasil. 

Transtorno de aprendizagem não verbal, também conhecido como TANV, é uma alteração específica, caracterizada por prejuízos marcantes no raciocínio matemático, na cognição viso espacial, na coordenação motora, na percepção sensorial e nas habilidades sociais.

Eles têm dificuldades importantes para lidar com situações, informações novas e complexas. Eles também apresentam dificuldades para adequar respostas de acordo com o feedback recebido. É frequente o uso de respostas verbais, apesar de a situação requisitar outras estratégias de soluções de problemas, formação de conceitos e testagem de hipóteses.

 Isso é muito, muito interessante quando a gente percebe que, às vezes, a gente só quer uma informação e eles não conseguem te dar esta informação que você especificamente está trabalhando. Distorção na percepção e na orientação temporal, isso é algo que fica bem evidente nas pessoas com TANV.

Habilidades verbais decoradas bem desenvolvidas, vocabulário ou facilidade para decorar… essas pessoas que tem TANV têm uma habilidade. A gente, às vezes, até pensa assim: tem um problema na fala. Não, eles decoram, mas não dão o significado necessário e sentem extrema dificuldade de se adaptar a novas situações mais complexas. Qualquer mudança na rotina ou novidades propostas causam medo e eles necessitam de uma reorganização em cima disso.

As principais manifestações clínicas do TANV, corroboradas por Moura & Haase, foram relacionadas a: primeiro, déficit bilateral na percepção tátil, predominantemente acentuados ao lado esquerdo do corpo; a percepção tátil simples pode normalizar-se com a idade, mas a interpretação de estímulos táteis mais complexos permanece alteradas. Desses déficits bilaterais, o da percepção tática é aquele que a gente verifica onde o indivíduo tem maior sensibilidade. Déficit bilateral da coordenação psicomotora, geralmente mais acentuado do lado esquerdo do corpo: habilidades motoras simples e repetitivas.

Então, quando trabalho estas habilidades motoras mais complexas, eles me apresentam uma dificuldade. Por exemplo, se peço duas ou três ações motoras ao mesmo tempo, já vou notar uma dificuldade de resolução. Habilidades organizacionais viso-espaciais estão significativamente comprometidas.

O que são habilidades organizacionais viso espaciais? É quando eu falo para ele perceber esse espaço onde ele está. Eu costumo dizer assim, que é aquela criança que derruba tudo, que não tem essa noção do espaço onde ele se encontra.

  • Deficiência destacada na mecânica da aritmética e na compreensão da leitura, em comparação com as habilidades adequadas de leitura de palavras isoladas.

É muito interessante como eles têm a facilidade maior nessa leitura de palavras isoladas.

  • Alta verbosidade rotineira e repetitiva, com limitações relacionadas ao conteúdo de linguagem, e dificuldades nos aspectos pragmáticos da comunicação.

O que eu falo muito aqui, é o “cocktail party” da fala, porque vamos trabalhando essa fala e essa dicção de uma forma, sempre no mesmo vocabulário e sempre na mesma forma.

  • Déficit significativo na percepção, julgamento e interação social com clara tendência para retraimento e/ou isolamento social, mesmo com o aumento da idade.

Não é porque eles são pequenininhos que eles se mantêm nesse momento, isso é uma característica que vai permanecendo no decorrer da vida do indivíduo.

  • Frequentemente estressado em situações de novidade social.

É aquilo que a gente falou antes: mudou a rotina, acabou com toda organização de vida deles. Eu o tiro da rotina, então, preciso automaticamente reorganizá-lo para que ele tenha toda a noção.

É o que acontece com uma de nossas alunas que, quando ela não é atendida por mim, e, sim, por outro colega, deve passar por toda uma adaptação novamente e isto pode ser estressante.

Tudo o que é novo para as crianças que possuem esse tipo de transtorno afeta o emocional deles e gera uma ansiedade imensa. Chega ao ponto de eles já saírem de casa perguntando “eu vou ter aula com quem?”, e já saem do atendimento perguntando se no outro atendimento será o mesmo. Então, é algo que fica na cabecinha deles e vai tomando um dimensionamento muito grande, chegando a pânico em determinadas situações.

  • Apresentam risco para o desenvolvimento de perturbação socioemocional, especificadamente na forma internalizada de psicopatologia.

ALGUMAS CARACTERÍSTICAS QUE SÃO COMUNS EM QUEM TÊM TANV:

  • Maior incidência é no gênero masculino;
  • Eles abrangem fatores cognitivos, sociais, fisiológicos, genéticos, funcionais e estruturais;
  • A incidência de permanecer, ela é baixa;
  • Soletração, tem dificuldade de associar o som da letra e a letra e a palavra invertida.
  • Memória; falha na retenção, na sequencialização e no armazenamento.
  • E escrita, dificuldade de seguir a linha, produção lenta, dificuldade de copiar.

Isso é uma das queixas mais comuns no consultório, e o que eu costumo dizer, com os meus 20 anos de prática, é que hoje a gente trabalha muito a cópia nos meninos.

Os meninos, hoje, já entram no primeiro ano da alfabetização tendo que copiar do quadro, e essa organização que eu preciso olhar, guardar na memória e transcrever faz com que o aluno tenha uma dificuldade na escrita.

Muitas vezes, ele copia como está no quadro, e se você dividir o quadro ao meio, da folha, a primeira parte, eles mudam a linha e copiam em baixo; por que? Porque é a organização que ele está tendo.

Então, essa dificuldade de copiar precisa ser observada, pois pode ser uma questão visual, quando não é uma questão de propriocepção. A gente precisa identificar bastante. “Ele não quer copiar, ele é preguiçoso”; não. Às vezes, eles não copiam porque não tem algo que favorece essa cópia.

  • Leitura: repete, omite, ou soma letras, fluência é pobre, confunde letras e palavras.
  • Matemática: confunde número com símbolo, dificuldade de compreensão e associação de ideias.

Quando a gente trabalha multiplicação, mesmo nesse processo aqui, eles têm muita dificuldade de visualizar que a multiplicação tem relação automática com a soma. Então, quantos grupos de dois nós temos? Duas vezes dois, então temos dois grupos com dois elementos cada. Essa associação para eles é muito difícil.

  • Sinais neurológicos: sincinesias, movimentos repetitivos, dificuldade em lateralidade.
  • Exame de neuroimagem: existe uma diminuição no fluxo sanguíneo, principalmente na parte medial do temporal esquerdo.

Então, a gente percebe que essas são questões que aparecem de forma sistemática em alguns casos de TANV.

Vale ressaltar que transtorno de aprendizagem (TA) é diferente de dificuldade de aprendizagem.

Dificuldade de aprendizagem é como um sintoma, no sentido de que não aprender não configura um quadro permanente, mas, sim, entra numa variedade de comportamentos nos quais se destaca como sinal de compensação. Nenhum fator é determinante, pois ele aparece da fratura contemporânea de uma série de concomitantes.

Sobre os transtornos, existem questões bem mais complexas que a dificuldade de aprendizagem. A dificuldade de aprendizagem pode ser automaticamente trabalhada e sanada. Quando eu falo de transtorno, exijo todo o arcabouço de equipe multidisciplinar que faz com que esse aluno consiga se reorganizar e melhorar o seu processo de aprendizagem.

DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM: O QUE SÃO AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM?

 Freitas e Sampaio falam que:

  • As dificuldades de aprendizagem são um desafio para o educador e abrangem um grupo heterogêneo de problemas que alteram a capacidade de aprender.
  • Apesar de a aprendizagem acontecer no cérebro, nem sempre é ela a causa original das dificuldades observadas.
  • E as dificuldades para aprendizagem tem etiologia multifatorial e demanda uma abordagem interdisciplinar.

Quando você fala dessa questão de que a criança não aprende porque não quer, não, existem questões que façam com que ela não aprenda, e, sim existem questões que, ao serem estimuladas, desenvolvem um comportamento para não aprendizagem desse indivíduo.

O que é a aprendizagem? Mudança de comportamento. Para o meu aluno aprender, eu tenho que mudar o comportamento dele. Ele precisa, automaticamente, trazer uma nova resposta daquilo que eu ensinei; isso é fato. Todo mundo quer que todo mundo aprenda.

Só que nós não aprendemos da forma correta; da mesma forma, eu tenho estilos e modalidade de aprendizagem diferente. Tenho gente que trabalha mais com a parte sinestésica. O sinestésico necessita do toque, do movimento. Tenho gente que precisa mais da centralidade, um professor que seja mais conceitual, que, ao explicar, fale mais do que os autores falam, porque, assim, ele aprende melhor.

Eu tenho outros alunos que aprendem com exemplos práticos. Às vezes, durante o ministrar da aula, você fala um exemplo e o aluno aprende. É muito importante que a gente perceba que não é um discurso só para professores, é um discurso para todo mundo que trabalha com indivíduo, e por que?

Às vezes, a gente tem na nossa empresa um funcionário que parece que fala com ele e ele nunca entende, mas está aprendendo do jeito correto? A aprendizagem perpassa todos os ambientes; então, nós precisamos aprender como acontece esse problema da aprendizagem.

Se o indivíduo não está aprendendo, o que faz com que ele não aprenda? É essa equipe multifatorial e interdisciplinar onde cada um tem o seu olhar que fará a intervenção necessária.

Um psicopedagogo não pode fazer o trabalho de um psicólogo. Automaticamente, não pode fazer um trabalho de um fonoaudiólogo, mas a gente precisa conversar, porque, se as nossas intervenções não tiverem uma mesma linha, cada um vai desfazer o que o outro acabou de fazer, certo?

Então, quando essa equipe trabalha junta, de forma interdisciplinar, conseguimos grandes avanços.

CARACTERÍSTICAS DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM:

  • Desempenho não é compatível com a capacidade cognitiva da criança.

A gente fala muito isso, “eu sei que ele sabe, mas ele não está conseguindo alcançar”. Se o aluno não está conseguindo um resultado que é necessário, precisa-se investigar o que está acontecendo.

  • Gera-se uma autoestima negativa em virtude de o esforço não ser recompensado.

Isso é um fato: ninguém gosta de estudar, de fazer por onde e no final não conseguir o resultado necessário, então isso é fundamental, e é uma das maiores questões que a gente tem que trabalhar. Porque, uma pessoa com a autoestima baixa tem maior dificuldade no processo de aprendizagem.

  • Seu diagnóstico pode acontecer na fase pré-escolar o que evita problemas futuros.

 A gente fala muito do ensino médio, que é importante para faculdade, mas, a base da educação infantil e dos anos iniciais, se forem bem trabalhadas essas questões, são vitais para evitar muitos problemas lá na frente. A negligência nessa fase pré-escolar e dos anos iniciais faz com que os alunos tenham e paguem um preço altíssimo de vida acadêmica.

  • Geralmente são transitórios

As DAs passam, faz-se a intervenção, organiza, e pode ser até que apareçam outras, mas, a gente consegue fazer com que elas consigam ser sanadas.

  • Podem ser evitadas tomando-se cuidado em respeitar o nível cognitivo da criança e permitindo com ela possa interagir com conhecimento: observar, compreender, classificar e analisar.

Quando eu respeito o nível dessa criança, não quero que ela fique naquele pote onde todo mundo tem que aprender igual, onde todo mundo pensa do mesmo jeito; eu faço com que eu acredite no que ela é.

 Normalmente, a dificuldade de aprendizagem das crianças é em virtude de famílias que, infelizmente, tem esse olhar de que escola boa é aquela em que o nível de exigência é lá em cima, e, assim, paramos um preço alto porque a criança fica desmotivada porque ela não consegue nunca alcançar esse nível cognitivo.

Não é nem que ela não saiba; às vezes, ainda não foi atingindo, porque essas estratégias ainda não foram utilizadas. Então, quando essa criança percebe que o nível dela está sendo respeitado e estimulado, ser respeitado não é permanecer no mesmo lugar, é você estimular para que essa criança se desenvolva, ela vai automaticamente ter uma construção de autoestima melhor.

FATORES QUE INFLUENCIAM NA APRENDIZAGEM:

  • A interação do indivíduo com o ambiente,
  • A boa saúde do indivíduo.

Precisamos dormir bem, e a criança que não tem sono é necessário verificar. Primeira pergunta, o que que eu tenho que saber da criança, como é esse sono? É um sono agitado? Ela entra em sono profundo? Ela dorme bem? A criança que não dorme bem irá desenvolver problemas de aprendizagem, porque o sono é quem faz a gente reorganizar, guardar e reter as informações. 

  • O ambiente auxilia o aprendiz no desenvolvimento de comportamentos adaptativos que podem prejudicar ou contribuir para a aprendizagem.
  • Os fatores socioeconômicos interferem, pois podem favorecer a vivência de experiências sensoriais, motoras e sociais que são fundamentais para o adequado funcionamento e para a reorganização do seu sistema nervoso.

Veja bem, quando falamos dessa questão dos fatores que influenciam essa aprendizagem, estou automaticamente falando desse indivíduo integrado, que é feito de corpo, de alma, de saúde. Quando mais estímulo eu tenho, mais estímulo eu vou recebendo e mais eu vou modificando a minha forma de pensar. Então, precisamos fazer com que os nossos alunos, tenham essas questões bem desenvolvidas para que a aprendizagem aconteça.

O QUE FAZER?

Primeira coisa: pai, professor, coordenador que chegou até aqui; a gente tem que ter um olhar e verificar, além de conseguir um diagnóstico. Vamos descobrir o que é diagnosticar.

O QUE É DIAGNOSTICAR?

Primeiro, é observar a forma com que seu aluno ou seu filho aprende. Seu filho aprende falando, lendo alto, no silêncio? A criança que tem hiperatividade, no silêncio, não consegue se concentrar. Às vezes, uma criança hiperativa vai conseguir te dar uma devolutiva maior do que ler sentada no silêncio, porque a modalidade de aprendizagem é única, de cada indivíduo. É necessário traçar os objetivos claros e fundamentais no nível de aprendizagem do aluno.

Veja bem o que falamos: se o meu aluno está em um nível abaixo, eu não vou colocar um nível lá em cima para ele alcançar; eu vou fazer ele evoluir e vou criando estratégias para ele devagar. Trace metas de curto e longo prazo. O que eu quero que ele alcance aqui nesse mês e o que que eu quero que ele alcance no final do ano? Diversifique o ambiente na sala de aula e no quarto onde ele estuda… quanto mais rico for o processo de estimulação, maior é o desenvolvimento da aprendizagem do indivíduo.

Proponha atividades que abra o espaço cognitivo, ou seja, atividades que se complementem para você verificar como que esse aluno está fazendo, como esse indivíduo está fazendo.

Seja flexível. Não tem receita, e essa questão de a gente impor onde ele tem que chegar é muito comprometedora, porque, às vezes, a gente não vai fazer. A nossa estratégia não faz com que ele alcance, então, eu preciso mudar minha aula. A minha aula tem que ser reflexo da aprendizagem; a minha forma de ensinar tem que fazer um aluno aprender. E dentro de uma sala de aula com 30, 40 alunos, como é a realidade da nossa educação brasileira, a gente precisa identificar formas de trabalhar com esses alunos.

Desenvolva estratégia que facilitem a aprendizagem destes alunos na área da atenção, na competência interpessoal.

Hoje, nós temos um problema social em cima disso, que é a relação interpessoal. As pessoas não sabem mais conviver umas com as outras, e isso faz parte do nosso processo. Motivação, fala e linguagem, sequenciação visual e auditiva. Memória, organização de sequências, sentido e direção de espaço, competência viso motora, organização, interação e reflexão e raciocínio lógico matemático… tudo isso aqui pode ser desenvolvido de forma lúdica.

Para finalizar, vamos elaborar uma atividade lúdica para desenvolver essas áreas… brincando, a gente consegue desenvolver. Com um jogo, você trabalha mais de 6 das funções executivas dos nossos alunos.

A gente às vezes fala: “está brincando ali, está pulando uma corda, não está desenvolvendo nada”. Pular uma corda pode trazer inúmeras coisas positivas no aprendizado de um indivíduo. Por fim, deixo essa frase para vocês; é uma frase que eu li nos tantos livros, nas pesquisas que eu faço, que se encaixa muito no que eu acredito.

“Ter e conviver no cotidiano escolar com uma diversidade de alunos e suas dificuldades relativas a aprendizagem faz com que nós, educadores, sejamos eternos aprendizes em busca de soluções e alternativas que facilite a aprendizagem de nossos alunos em prol de uma educação de qualidade, auxiliando-os em suas atividades de aprendizagem, sendo o mediador, hoje no que ele ainda não sabe fazer sozinho, mas que amanhã será capaz.”

Eu acredito no processo de educação. Sou educadora há 22 anos, já trabalhei em todos os níveis, desde a educação infantil até o ensino superior, e eu acredito nisso. E não acredito só para a criança. Às vezes, eu estou lá na faculdade dando aula, e essa semana veio uma aluna dizendo “professora, a senhora tem perguntado se eu estava bem, aquilo me fez tão bem, a senhora faz aquilo que a senhora fala”. Então… professor é isso; professor é estudar e acreditar que a gente pode mudar o amanhã. Se de 60 que está na nossa turma, um mudar, já estamos felizes.

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6 Comentários

  1. Rosana disse:

    Acho que nunca li um artigo tão bem explicado como este, só aumentou a minha vontade de fazer minha pós e meu mestrado nessa área, percebi que preciso estudar muito sobre o assunto. Obrigada pelas dicas! Aprendi muita coisa, com uma visão que nunca tive.

  2. Silvia Helena disse:

    Adorei o conteúdo, tudo muito bem explicado, muito bem colocado, uma linguagem clara que nos oferece perfeita compreensão. Fiquei interessada em saber mais, tenho muito o que estudar á respeito, Parabéns!!!. E obrigada por compartilhar seus conhecimentos.

  3. Cláudia disse:

    Amei… Conteúdo riquíssimo!!!
    Aprendi e compreendi que o transtorno vai além do sintoma….

  4. Cristina disse:

    Sensacional. Amei..

  5. Enya Peres Maciel Fagundes disse:

    Muuto produtivo contribuiu para minha pesquisa

  6. Liliam Teixeira disse:

    Foi muito esclarecedor pra mim, essa diferença entre deficiência e transtorno , é essencial para minha formação .